Bú! :-P

Momentos Que a Vida Nos Proporciona

CIRURGIÕES DA ALEGRIA - (Cristiane Abreu) (200)

Temos nos deparado com muitas histórias ao longo dos anos de trabalho dentro dos hospitais, mas cada dia nos surpreendemos com novas propostas, novos encontros e ideias malucas. Criança é um ser criativo por natureza, e nem sempre segue a lógica. Aí, entra o artista, preparado para estar no momento presente para abraçar as ideias e propor uma nova realidade.

Assim foi com Michel*, aproximadamente 7 anos de idade, nos confundiu logo de cara, “olha lá os palhaços Torresmo e Lingüiça”. Nos olhamos, eu, Cirurgião Acerola e o outro, Cirurgião Gaguelho, esperamos um tempo para digerir aquilo, e quanto mais espantados ficávamos, mais a criança se divertia. “Isso mesmo, vocês são Torresmo e Lingüiça”, sentenciou e riu, claro.

Nós, ficamos ali, por um tempo, digerindo a informação, até que Acerola começou a chorar, aquele choro fininho, sentido, triste… Gaguelho logo perguntou porque o choro, e Acerola confessou “Não quero ser o Lingüiça, esse nome parece uma coisa amarrada, gordurenta… e dividida em gominhos!”.

Sensibilizado, Gaguelho também pensou em seu nome “mas eu também não quero ser Torresmo, afinal, lembra porco, gordura, defumado, ummmmm, delícia!”.

Acerola interrompeu “mas ou você fica triste ou fica feliz; é delícia ou uma coisa pesada? Se decide aí Gaguelho, estou confuso!”.

A confusão estabelecida, questionamos enfim, Michel, aquele ser que nos rotulou com esses nomes. “Quem falou que somos Torresmo e Lingüiça?”. A criança prontamente tomou conta da história “vocês são o que eu mandar, agora são a lebre e a tartaruga”, agora “um cachorro e uma galinha”, agora “um peixe e uma cobra”. Por aí foi, e nós nos transformando nos vários personagens que a criança mandava, até que o menino diz ao Acerola “você é uma tinta verde!”.

Aí eu pergunto a você leitor, o que você faria?… Questiono o menino? Disputo a liderança da coisa toda? Falo que não gosto de verde, ou que eu queria outra cor? Olha, não tenho essa resposta, mas a escolhida foi me jogar na parede, grudar lá e perguntar para o Gaguelho “e aí, ficou bonita essa parede verde?”.

Gaguelho achou lindo, envolveu o restante das pessoas do quarto na votação, confirmou com a família e saímos do quarto para pintar todas as casas, ruas, avenidas, postes, lojas, todas de verde. A criança, com cara de orgulhosa de ter criado aquilo tudo, e os enfermeiros com a famosa cara de “não acredito”. Aquela cara de “que absurdo foi esse que acabei de ver?”, sabe?

Essa história, com toda a sua pureza e inocência do encontro, acabou nos provocando boas reflexões, e para mim ficou a seguinte: “E aí, você é o que é, ou é o que querem que você seja?”.

A resposta é complexa e não é universal, cada um terá uma versão do fato, e também envolve uma série de outros questionamentos. Porém, às vezes parece que o universo nos apresenta a oportunidade de sermos uma “tinta verde”, sem questionamentos, apenas nos dando uma bela chance de evolução, e nos adaptarmos a uma nova realidade, experimentando uma nova maneira de vivenciar a vida.

O fato é que nesse caso, procuramos ser o que o momento pediu, viver o presente e estar inteiramente disponíveis para aquele encontro. Nos permitimos receber mais um desses bons momentos que a vida proporciona para palhaços e crianças no hospital.

* Os nossos relatos são descritos utilizando nomes fictícios, para preservar a integridade dos pacientes internados.

Artista: Tiago Abad

Palhaço: Cirurgião Acerola

Cidade: Campinas

Hospital: Mário Gatti

Mês: fevereiro – 2018

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