Bú! :-P

Eu Quero Vida! Vem Aqui Divertir a Gente!

MÁRIO GATTI -5 Abril (Cristiane Abreu) (283)

É de impressionar o que uma doença faz com uma família inteira! Não, não estão todos portando o câncer, mas esta é uma doença que atinge a todos, principalmente se é em um dos filhos. Eu mesmo participei de uma história recente envolvendo a perda de um amigo, com câncer aos 30 anos de idade. Não é fácil pra ninguém, mas para a família, pior ainda! É nítida a transformação em todos, é cruel a maneira de ensinar dessa doença.

Ensinar, porque todos aprendem algo, seja bom ou ruim. É uma transformação coletiva através da dor, da esperança, da união entre todos os familiares e amigos que pensam em maneiras de divertir ou distrair o filho doente, buscando maneiras distintas de tratamento, seja ele medicamentoso, espiritual, caseiro, curandeiro, a igreja, a benzedeira, e por aí vai.

Vivem tão intensamente esses momentos, que dificilmente nos prestamos a essa intensidade quando tudo está bem. Estranho isso, mas nós (e me incluo nisso) temos um problema grave quanto a comemorar o presente, pelo simples fato de estar tudo bem – tenho voltado a minha vida a essa prática, dá para entender que a vida é passageira e que a gente só leva os bons momentos, as boas amizades, as boas relações.

Ao passarmos em frente a sala da Oncologia, ouvimos de lá de dentro “Entrem!! Venham, eu quero vida! Faz uma graça, estamos precisando! Vem aqui divertir a gente!”. Uma troca de olhares, os olhos da mãe mergulhados em lágrimas, como se nós palhaços cirurgiões estivéssemos com um tipo de cura em outro nível (não é o remédio, mas a nossa presença traria algo bom a filha). Entramos na sala, a filha chorando, e muitas pessoas em igual ou pior estado… é nítido que o tratamento é muito cansativo, o sofrimento estampado nos olhares.

Entramos, brincamos, algo tocou e nos tocou. Dois meses se passaram, nos encontramos diversas vezes. Já vieram assistir ao nosso espetáculo, já demos autógrafo no livrinho que entregamos, presenciamos muitas vezes de choro e desesperança, e vimos também a fé despertar, cabelos caírem, e a esperança de que os bons ventos voltem a mover a vida para a cura, para o bem estar.

Nós, palhaços, estamos juntos! Dá pra sentir a dor, levamos as histórias em nossas vidas, para nossas casas, em nossos corações. Vira e mexe vem aquela história, pensamos em soluções, o que podemos levar para um encontro mais feliz, ou que desperte algo de bom com quem cruza o nosso caminho.

Esse trabalho no hospital é um retrato bruto da vida. É na dor e no sofrimento que ocorrem grandes transformações, e não há muito espaço para reflexões. Cada vinda de um médico, ou o resultado de um exame feito, traz a transformação imediata, todos se rearranjam como podem, se estruturam na medida do possível e tocam as suas vidas.

E nós, fazemos o mesmo! Cada encontro uma história, cada ação uma oportunidade de transformar as deles e as nossas vidas.

Artista: Tiago Abad

Palhaço: Cirurgião Acerola

Cidade: Campinas

Hospital: Mário Gatti

Mês: abril – 2018

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