Bú! :-P

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Ser Palhaça, Uma Eterna Pesquisa
Ser Palhaça, Uma Eterna Pesquisa

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Senti-me super honrada quando recebi o convite para participar do AjuntaMédica Hospitalar dos Cirurgiões da Alegria no Hospital Municipal Dr. Mário Gatti, em Campinas. Acompanho a Associação há anos, tenho um respeito imenso pelo trabalho sério, profundo e comprometido que eles fazem. Poder compartilhar um pouco desse fazer era uma oportunidade imperdível!

Por isso, não tive dúvidas em aceitar, apesar de tantos anos que não fazia visitas em hospitais. Afinal, uma das coisas que mais me encanta no trabalho como palhaça é a altamente libertadora posição de estar pronta para o novo. De experimentar as relações, de pesquisar sobre o que acontece dentro de mim, dentro do outro, na relação entre nós.

E foi assim que cheguei com o Tiago e o Eliseu ao hospital, com a certeza de ter pela frente um dia absolutamente desconhecido. Em um outro momento da minha vida essa seria uma situação nada confortável, porém é justamente esse exercício que tenho feito sempre, a cada novo momento em que Consuelo adentra esse mundo: aprender a estar confortável com o incontrolável, o indecifrável, o mistério.

Talvez esteja exagerando um pouco apenas para dar ênfase à essência dessa profissão, já que naquele dia também havia elementos conhecidos: primeiro teria a companhia de parceiros queridos, e cheguei mais do que aquecida ao hospital depois de uma viagem de Limeira a Campinas recheada de histórias com o lado B (ou seria lado A?) dos dois.

Segundo, estaria novamente como palhaça em um hospital, ambiente que vivi intensamente durante seis anos, como voluntária da Operação Arco-Íris e depois com a POP no Hospital da USP. Ainda assim, os quatro anos de HU foram voltados à equipe do hospital e aos pacientes já idosos, portanto há anos não encarava um leito com uma criança doente.

Da parte desconhecida havia o desafio de formar um trio. Quase todos os palhaços trabalham em dupla. É uma tradição, é um formato técnico, é muito natural. Mas a proposta dos Cirurgiões, parte da pesquisa que estão fazendo, é justamente como jogar em trio. Então, embora desafiadora, a missão era, justamente, “se jogar”.

Eu já falei do trajeto de carro em que compartilhamos histórias. Queria contar também sobre outros detalhes que fazem toda a diferença na preparação para um trabalho desses. Como, por exemplo, chegar e tomar um café da manhã sossegado, tranquilo, com mais histórias, antes de começar o trabalho. Depois, arrumar-nos ao ar livre, usando uma mesa de apoio ao lado do vestiário dos funcionários. Havia árvores, passarinhos, um sol lindo aparecendo. E a gente lá, tranquilos, colocando o figurino, maquiando-nos, falando bobagens.

Para trabalhar bem em conjunto e conseguir sintonia dependemos de vínculo. E ele vai sendo construído não apenas quando estamos dedicados ao resultado final, seja ele qual for. É o trajeto, a preparação, os detalhes que constroem e reforçam os laços que depois irão proporcionar harmonia na relação. Creio nisso com todas as forças, e juntos naquele dia fomos construindo esse ambiente propício aos bons encontros.

Chega então uma colaboradora do hospital. Ela já conhece o ritual de “aprontação” dos palhaços, fala conosco como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo. Ela acaba sendo nossa primeira interação, quer fazer vídeos, tirar fotos, e assim Acerola, Gaguelho e Consuelo vão chegando.

Então acontece o momento mágico: Gaguelho puxa Calix Bento de Milton Nascimento no violão para nossa caminhada até a entrada do hospital. Eu simplesmente amo essa música. E aquela preparação toda, o sol, os passarinhos e a possibilidade de cantá-la junto com meus amigos me emocionou profundamente. Então eu já sabia: seria um dia incrível.

O hospital é gigante, e a quantidade de pessoas que circula por ele, também. Mas nada para assustar, ainda mais porque Acerola e Gaguelho “dominam” a área. Pude sentir a receptividade decorrente de uma relação sólida, a confiança das pessoas no tipo de abordagem que os Cirurgiões propõem. E, desde cedo, percebi que não teríamos problemas com o trio, pois fomos nos afinando rapidamente.

Foram jogos gostosos, muita risada boa, sincera, muitos encontros preciosos e encantadores.

Mas o jogo que mais me marcou foi logo na chegada, quando encontramos o ascensorista Luis, que declamava poemas de cabeça. Acerola e Gaguelho já sabiam (tem até nome, o Sarau do Elevador!), e tinham inclusive um poema que ele havia ficado “devendo” para eles. Poema declamado, fomos animando Luis, que seguiu declamando vários outros, com o elevador subindo e descendo, e a gente junto. A gente não precisava fazer nada. Apenas aquele homem simples, sabedor de poesia, bastava. Eu poderia ter ficado horas só nos encontros do elevador, ouvindo-o. Não precisava de mais jogo algum (e acho que Acerola e Gaguelho sentiram isso também, pois nos custou deixá-lo). E eu pensei em tanta coisa… Como é que pode? A força da poesia? E esse homem, que a tem no peito? E as pessoas, que nem sabem disso? E o mundo, que diria que ele é um simples ascensorista, e que saber pode haver nisso?

Para a minha pesquisa, três outros pontos me parecem importantes lembrar: o primeiro foi o sentimento estranho que tive ao pisar no hospital com o jaleco de cirurgiã (ainda que palhaça). Em todos os trabalhos que fiz sempre estive com uma roupa “normal” da Consuelo. Nunca usei jaleco, de propósito. Mas não me lembrava desse detalhe, nem me preocupei quando, ao me arrumar, recebi o jaleco dos Cirurgiões para colocar. Porém, no segundo em que olhei para as pessoas que estavam na recepção, ou no segundo em que elas olharam para mim, senti algo diferente. Fiquei tentando entender, e pensei que, ao ter um jaleco, ainda que fosse como palhaça, estava hierarquicamente acima daquelas pessoas que, ao contrário de nós, não podiam ir entrando direto, tinham que esperar ser atendidas.

É algo sutil, porém para mim foi claro como a água. Mesmo palhaça, eu era “cirurgiã”. Incomodou-me. Mas em questão de segundos decidi que isso não iria atrapalhar o jogo. Embora tivesse tido a sensação, sabia muito bem que uma boa palhaça pode proporcionar uma relação verdadeira independentemente dos julgamentos e pré-conceitos que possam existir, sejam de que natureza forem. Então segui e, como previ, essa questão não se apresentou em nenhum outro momento do dia.

O segundo ponto foi uma certa dificuldade de me distanciar do sentimento e dos pensamentos maternos ao interagir com as crianças. Desde que tive um filho não havia interagido com crianças doentes, e não foram poucos os momentos em que me peguei “saindo” do estado de palhaça com alguma situação. Ou mesmo quando decidi que ia convencer uma menina a comer. Depois que terminamos a cena, percebi que havia em mim algo que não pertencia à linguagem do palhaço, percebi que até comecei o jogo inteira, mas conforme a criança ia sendo irredutível, mais eu me sentia na missão de ajudar sua mãe e a equipe de enfermagem a fazê-la comer. Fui salva por Acerola e Gaguelho, que mantiveram o jogo como deveria ser.

Por fim, meu mais alto louvor a fazer graça com a companhia da música. Foi inspiradora a presença do violão e do pandeiro. Acerola e Gaguelho utilizam esse recurso de maneira discreta, precisa, como mais uma ferramenta de apoio. E ela diz muito quando não é possível dizer mais nada. É carinhosa e delicada para esse trabalho de hospital, simplesmente adorei.

Fica aqui esse meu relato, a quem possa ajudar. E meu enorme agradecimento pela oportunidade, pelo dia, pelo dia anterior, pelo dia seguinte. Amigos, juntos, de coração. Valeu!

Artista: Nina Campos

Palhaça: Consuelo

Cidade: Campinas

Hospital: Mário Gatti

Mês: julho – 2018

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Criança Bota Ovo?
Criança Bota Ovo?

Cirurgiões da Alegria

Alguns pacientes da Oncologia são velhos conhecidos, ou melhor, ótimos amigos! É tanta amizade que já fomos convidados a ir a várias cidades,  fazer uma visita, almoçar, posar, passar um final de semana, e uma série de histórias incríveis! São tantas que dá até para criar um livro. E olha que essa é uma boa ideia!

Esse nosso amigo foi plantador de café em Guaxupé, a rima já deu música, poesia e até rendeu convites para irmos à sua casa:

Tomar Café em Guaxupé

Vem pra cá, pode entrar, sem banquinho,

só para quem quer ficar de pé…

a casa não é grande e nem pequena,

vai de carro ou vai de a pé…

pode ir de mansinho, lá sai até um cafezinho,

colhido por quem tem fé,

encontrou a vida boa é calminho,

tem até neto e muié.

Só uma palhinha do poeminha que criamos. E são relações tão importantes e de coração tão puro, que cada encontro é daqueles de brilhar os olhos de emoção.

Quarta feira chegou, dia de visita no Hospital Municipal Dr. Mário Gatti, e nós, como sempre, sem saber o que pode acontecer e quem podemos esbarrar pelo caminho. Para a boa surpresa do dia, o encontramos na entrada da Oncologia como de costume, mas dessa vez com uma boa parte da sua família. Filhos, netos e bisnetos, inclusive, essa história é com um dos seus bisnetos. Sabe aquelas crianças atentadas? Fogueteira, cheia de saúde e com a mente funcionando a mil, pois bem, em determinado momento, pediu para os Cirurgiões Acerola e Gaguelho uma série de desafios… “agora dança; eu quero música; agora imita uma vaca; uma galinha”… no momento da galinha, pedimos para que ele imitasse o bicho também.

E não é que ele fez uma “bela galinha”? Foi muito convincente, ficou engraçado demais! Porém, o Cirurgião Gaguelho se aproxima da criança e retira dele um ovo! Para espanto geral, aquele silêncio de segundos, seguido de gargalhadas ao perceberem o que estava acontecendo. A criança com cara de espanto “Mas como assim?” e nós “ué, você faz galinha tão bem que até botou ovo!” Ele levantou, olhou para “os fundos”, procurou no banco, embaixo do banco, na calça, no bolso, e nada! Imagino que estava pensando de onde é que havia saído o tal do ovo.

Agradecemos o presente e guardamos o ovo no bolso para a hora do almoço. Até agendamos um novo encontro mas para ele botar mais ovos porque um só não dava pra dois Cirurgiões.

Quem saiu bem na foto foi o Cirurgião Gaguelho que agora se tornou parteiro de ovos, uma especialidade somente para Cirurgiões que tiveram vivências caipiras.

Saímos com a tal da dúvida. Será que criança bota ovo?

Artista: Tiago Abad

Palhaço: Cirurgião Acerola

Cidade: Campinas

Hospital: Mário Gatti

Mês: junho – 2018

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O Poder de um Imprevisto
O Poder de um Imprevisto

2018-06-26 MEDICAL (Luana Souza) (47) 1

Nosso dia a dia requer muito preparo, técnico, artístico, o improviso, a higienização, habilidades, estado de palhaço, roteiro, o que pode e o que não pode, e um preparo específico que é navegar no universo hospitalar, estar preparado para imprevistos.

E aí você pode me perguntar “mas como você fica preparado para imprevistos, sendo que o imprevisto é acaso?”. Você tem razão, o significado da palavra no dicionário é “1. Que ou aquilo que não foi previsto; inesperado”, porém, a segunda definição segundo o dicionário é muito interessante: “2. Que ou quem não é precavido; descautelado”.

E é aí que mora o nosso trabalho, descautelado, não precavido. Estar nesse estado neutro, desprovido do pensar, sem expectativas, apenas reagindo ao que o universo nos manda, abre um espaço enorme para que o imprevisto aconteça e a criatividade brote do estado mais simples, “do nada”, ou do tudo na verdade. Tudo o que você já aprendeu na vida, toda a sua bagagem de conhecimento se funde e apronta uma saída para o inesperado de maneira tão natural, que até parece que foi programada e pensada. Na verdade, os anos de preparo te gabaritam para o “parece que foi programado”, e foi realmente, só que pela vida.

Vejo que quando falam para você “saia da caixa, pense diferente”, estar descautelado é uma maneira muito interessante de criar algo novo. Nessa condição, não há juízo de valores, não há certo ou errado, é um espaço onde tudo pode, onde tudo acontece. É a criatividade no seu estado mais sutil, e na verdade, seria bom se todos nós nos relacionássemos dessa maneira, sem duvidar do outro, sem ter aquele pé atrás ao negociar com alguém. Deveríamos não nos precaver de nada, apenas estarmos uns com os outros, sem manobras ou apelações. Em verdade, assim como é uma dupla de palhaços, muito verdadeiros uns com os outros.

Toda essa introdução para contar um fato que aconteceu no “tempo de espera”, que aliás, acreditamos ser um tempo muito precioso de criação e novos acontecimentos. Sabe aquele tempo que você fica esperando uma reunião? Sabe aquele dia que há um atraso e você fica parado em uma lanchonete uma hora e meia esperando? Entre outros exemplos, para nós, esse tempo é fundamental! Tudo acontece nesse intervalo! você pode conhecer uma pessoa, ver algo no ambiente que te inspire, ler uma frase, observar o andar de alguém, experimentar um sabor diferente, e por aí vai, são muitas as opções.

Foi nesse tempo de espera, ou o intervalo entre um instante e outro, que descobrimos uma nova cena. Um chapéu, duas cabeças e o imprevisível. O Cirurgião Gaguelho jogou seu chapéu para o alto, errou, caiu na minha cabeça. Automaticamente saí procurando onde caiu o chapéu e ele procurando o chapéu em outros lugares. Pronto, está dado o start para um novo jogo, uma nova possibilidade. É claro que aquilo foi o momento fresco, o imprevisível, agora, estamos trabalhando e refinando a cena.

Sabe como isso tudo aconteceu? Simplesmente por estarmos ali prontos e dispostos a viver o imprevisto.

Artista: Tiago Abad

Palhaço: Cirurgião Acerola

Cidade: Limeira

Hospital: Medical

Mês: junho – 2018

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Momentos Que a Vida Nos Proporciona
Momentos Que a Vida Nos Proporciona

CIRURGIÕES DA ALEGRIA - (Cristiane Abreu) (200)

Temos nos deparado com muitas histórias ao longo dos anos de trabalho dentro dos hospitais, mas cada dia nos surpreendemos com novas propostas, novos encontros e ideias malucas. Criança é um ser criativo por natureza, e nem sempre segue a lógica. Aí, entra o artista, preparado para estar no momento presente para abraçar as ideias e propor uma nova realidade.

Assim foi com Michel*, aproximadamente 7 anos de idade, nos confundiu logo de cara, “olha lá os palhaços Torresmo e Lingüiça”. Nos olhamos, eu, Cirurgião Acerola e o outro, Cirurgião Gaguelho, esperamos um tempo para digerir aquilo, e quanto mais espantados ficávamos, mais a criança se divertia. “Isso mesmo, vocês são Torresmo e Lingüiça”, sentenciou e riu, claro.

Nós, ficamos ali, por um tempo, digerindo a informação, até que Acerola começou a chorar, aquele choro fininho, sentido, triste… Gaguelho logo perguntou porque o choro, e Acerola confessou “Não quero ser o Lingüiça, esse nome parece uma coisa amarrada, gordurenta… e dividida em gominhos!”.

Sensibilizado, Gaguelho também pensou em seu nome “mas eu também não quero ser Torresmo, afinal, lembra porco, gordura, defumado, ummmmm, delícia!”.

Acerola interrompeu “mas ou você fica triste ou fica feliz; é delícia ou uma coisa pesada? Se decide aí Gaguelho, estou confuso!”.

A confusão estabelecida, questionamos enfim, Michel, aquele ser que nos rotulou com esses nomes. “Quem falou que somos Torresmo e Lingüiça?”. A criança prontamente tomou conta da história “vocês são o que eu mandar, agora são a lebre e a tartaruga”, agora “um cachorro e uma galinha”, agora “um peixe e uma cobra”. Por aí foi, e nós nos transformando nos vários personagens que a criança mandava, até que o menino diz ao Acerola “você é uma tinta verde!”.

Aí eu pergunto a você leitor, o que você faria?… Questiono o menino? Disputo a liderança da coisa toda? Falo que não gosto de verde, ou que eu queria outra cor? Olha, não tenho essa resposta, mas a escolhida foi me jogar na parede, grudar lá e perguntar para o Gaguelho “e aí, ficou bonita essa parede verde?”.

Gaguelho achou lindo, envolveu o restante das pessoas do quarto na votação, confirmou com a família e saímos do quarto para pintar todas as casas, ruas, avenidas, postes, lojas, todas de verde. A criança, com cara de orgulhosa de ter criado aquilo tudo, e os enfermeiros com a famosa cara de “não acredito”. Aquela cara de “que absurdo foi esse que acabei de ver?”, sabe?

Essa história, com toda a sua pureza e inocência do encontro, acabou nos provocando boas reflexões, e para mim ficou a seguinte: “E aí, você é o que é, ou é o que querem que você seja?”.

A resposta é complexa e não é universal, cada um terá uma versão do fato, e também envolve uma série de outros questionamentos. Porém, às vezes parece que o universo nos apresenta a oportunidade de sermos uma “tinta verde”, sem questionamentos, apenas nos dando uma bela chance de evolução, e nos adaptarmos a uma nova realidade, experimentando uma nova maneira de vivenciar a vida.

O fato é que nesse caso, procuramos ser o que o momento pediu, viver o presente e estar inteiramente disponíveis para aquele encontro. Nos permitimos receber mais um desses bons momentos que a vida proporciona para palhaços e crianças no hospital.

* Os nossos relatos são descritos utilizando nomes fictícios, para preservar a integridade dos pacientes internados.

Artista: Tiago Abad

Palhaço: Cirurgião Acerola

Cidade: Campinas

Hospital: Mário Gatti

Mês: fevereiro – 2018

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