Bú! :-P

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Criança Bota Ovo?
Criança Bota Ovo?

Cirurgiões da Alegria

Alguns pacientes da Oncologia são velhos conhecidos, ou melhor, ótimos amigos! É tanta amizade que já fomos convidados a ir a várias cidades,  fazer uma visita, almoçar, posar, passar um final de semana, e uma série de histórias incríveis! São tantas que dá até para criar um livro. E olha que essa é uma boa ideia!

Esse nosso amigo foi plantador de café em Guaxupé, a rima já deu música, poesia e até rendeu convites para irmos à sua casa:

Tomar Café em Guaxupé

Vem pra cá, pode entrar, sem banquinho,

só para quem quer ficar de pé…

a casa não é grande e nem pequena,

vai de carro ou vai de a pé…

pode ir de mansinho, lá sai até um cafezinho,

colhido por quem tem fé,

encontrou a vida boa é calminho,

tem até neto e muié.

Só uma palhinha do poeminha que criamos. E são relações tão importantes e de coração tão puro, que cada encontro é daqueles de brilhar os olhos de emoção.

Quarta feira chegou, dia de visita no Hospital Municipal Dr. Mário Gatti, e nós, como sempre, sem saber o que pode acontecer e quem podemos esbarrar pelo caminho. Para a boa surpresa do dia, o encontramos na entrada da Oncologia como de costume, mas dessa vez com uma boa parte da sua família. Filhos, netos e bisnetos, inclusive, essa história é com um dos seus bisnetos. Sabe aquelas crianças atentadas? Fogueteira, cheia de saúde e com a mente funcionando a mil, pois bem, em determinado momento, pediu para os Cirurgiões Acerola e Gaguelho uma série de desafios… “agora dança; eu quero música; agora imita uma vaca; uma galinha”… no momento da galinha, pedimos para que ele imitasse o bicho também.

E não é que ele fez uma “bela galinha”? Foi muito convincente, ficou engraçado demais! Porém, o Cirurgião Gaguelho se aproxima da criança e retira dele um ovo! Para espanto geral, aquele silêncio de segundos, seguido de gargalhadas ao perceberem o que estava acontecendo. A criança com cara de espanto “Mas como assim?” e nós “ué, você faz galinha tão bem que até botou ovo!” Ele levantou, olhou para “os fundos”, procurou no banco, embaixo do banco, na calça, no bolso, e nada! Imagino que estava pensando de onde é que havia saído o tal do ovo.

Agradecemos o presente e guardamos o ovo no bolso para a hora do almoço. Até agendamos um novo encontro mas para ele botar mais ovos porque um só não dava pra dois Cirurgiões.

Quem saiu bem na foto foi o Cirurgião Gaguelho que agora se tornou parteiro de ovos, uma especialidade somente para Cirurgiões que tiveram vivências caipiras.

Saímos com a tal da dúvida. Será que criança bota ovo?

Artista: Tiago Abad

Palhaço: Cirurgião Acerola

Cidade: Campinas

Hospital: Mário Gatti

Mês: junho – 2018

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O Poder de um Imprevisto
O Poder de um Imprevisto

2018-06-26 MEDICAL (Luana Souza) (47) 1

Nosso dia a dia requer muito preparo, técnico, artístico, o improviso, a higienização, habilidades, estado de palhaço, roteiro, o que pode e o que não pode, e um preparo específico que é navegar no universo hospitalar, estar preparado para imprevistos.

E aí você pode me perguntar “mas como você fica preparado para imprevistos, sendo que o imprevisto é acaso?”. Você tem razão, o significado da palavra no dicionário é “1. Que ou aquilo que não foi previsto; inesperado”, porém, a segunda definição segundo o dicionário é muito interessante: “2. Que ou quem não é precavido; descautelado”.

E é aí que mora o nosso trabalho, descautelado, não precavido. Estar nesse estado neutro, desprovido do pensar, sem expectativas, apenas reagindo ao que o universo nos manda, abre um espaço enorme para que o imprevisto aconteça e a criatividade brote do estado mais simples, “do nada”, ou do tudo na verdade. Tudo o que você já aprendeu na vida, toda a sua bagagem de conhecimento se funde e apronta uma saída para o inesperado de maneira tão natural, que até parece que foi programada e pensada. Na verdade, os anos de preparo te gabaritam para o “parece que foi programado”, e foi realmente, só que pela vida.

Vejo que quando falam para você “saia da caixa, pense diferente”, estar descautelado é uma maneira muito interessante de criar algo novo. Nessa condição, não há juízo de valores, não há certo ou errado, é um espaço onde tudo pode, onde tudo acontece. É a criatividade no seu estado mais sutil, e na verdade, seria bom se todos nós nos relacionássemos dessa maneira, sem duvidar do outro, sem ter aquele pé atrás ao negociar com alguém. Deveríamos não nos precaver de nada, apenas estarmos uns com os outros, sem manobras ou apelações. Em verdade, assim como é uma dupla de palhaços, muito verdadeiros uns com os outros.

Toda essa introdução para contar um fato que aconteceu no “tempo de espera”, que aliás, acreditamos ser um tempo muito precioso de criação e novos acontecimentos. Sabe aquele tempo que você fica esperando uma reunião? Sabe aquele dia que há um atraso e você fica parado em uma lanchonete uma hora e meia esperando? Entre outros exemplos, para nós, esse tempo é fundamental! Tudo acontece nesse intervalo! você pode conhecer uma pessoa, ver algo no ambiente que te inspire, ler uma frase, observar o andar de alguém, experimentar um sabor diferente, e por aí vai, são muitas as opções.

Foi nesse tempo de espera, ou o intervalo entre um instante e outro, que descobrimos uma nova cena. Um chapéu, duas cabeças e o imprevisível. O Cirurgião Gaguelho jogou seu chapéu para o alto, errou, caiu na minha cabeça. Automaticamente saí procurando onde caiu o chapéu e ele procurando o chapéu em outros lugares. Pronto, está dado o start para um novo jogo, uma nova possibilidade. É claro que aquilo foi o momento fresco, o imprevisível, agora, estamos trabalhando e refinando a cena.

Sabe como isso tudo aconteceu? Simplesmente por estarmos ali prontos e dispostos a viver o imprevisto.

Artista: Tiago Abad

Palhaço: Cirurgião Acerola

Cidade: Limeira

Hospital: Medical

Mês: junho – 2018

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Momentos Que a Vida Nos Proporciona
Momentos Que a Vida Nos Proporciona

CIRURGIÕES DA ALEGRIA - (Cristiane Abreu) (200)

Temos nos deparado com muitas histórias ao longo dos anos de trabalho dentro dos hospitais, mas cada dia nos surpreendemos com novas propostas, novos encontros e ideias malucas. Criança é um ser criativo por natureza, e nem sempre segue a lógica. Aí, entra o artista, preparado para estar no momento presente para abraçar as ideias e propor uma nova realidade.

Assim foi com Michel*, aproximadamente 7 anos de idade, nos confundiu logo de cara, “olha lá os palhaços Torresmo e Lingüiça”. Nos olhamos, eu, Cirurgião Acerola e o outro, Cirurgião Gaguelho, esperamos um tempo para digerir aquilo, e quanto mais espantados ficávamos, mais a criança se divertia. “Isso mesmo, vocês são Torresmo e Lingüiça”, sentenciou e riu, claro.

Nós, ficamos ali, por um tempo, digerindo a informação, até que Acerola começou a chorar, aquele choro fininho, sentido, triste… Gaguelho logo perguntou porque o choro, e Acerola confessou “Não quero ser o Lingüiça, esse nome parece uma coisa amarrada, gordurenta… e dividida em gominhos!”.

Sensibilizado, Gaguelho também pensou em seu nome “mas eu também não quero ser Torresmo, afinal, lembra porco, gordura, defumado, ummmmm, delícia!”.

Acerola interrompeu “mas ou você fica triste ou fica feliz; é delícia ou uma coisa pesada? Se decide aí Gaguelho, estou confuso!”.

A confusão estabelecida, questionamos enfim, Michel, aquele ser que nos rotulou com esses nomes. “Quem falou que somos Torresmo e Lingüiça?”. A criança prontamente tomou conta da história “vocês são o que eu mandar, agora são a lebre e a tartaruga”, agora “um cachorro e uma galinha”, agora “um peixe e uma cobra”. Por aí foi, e nós nos transformando nos vários personagens que a criança mandava, até que o menino diz ao Acerola “você é uma tinta verde!”.

Aí eu pergunto a você leitor, o que você faria?… Questiono o menino? Disputo a liderança da coisa toda? Falo que não gosto de verde, ou que eu queria outra cor? Olha, não tenho essa resposta, mas a escolhida foi me jogar na parede, grudar lá e perguntar para o Gaguelho “e aí, ficou bonita essa parede verde?”.

Gaguelho achou lindo, envolveu o restante das pessoas do quarto na votação, confirmou com a família e saímos do quarto para pintar todas as casas, ruas, avenidas, postes, lojas, todas de verde. A criança, com cara de orgulhosa de ter criado aquilo tudo, e os enfermeiros com a famosa cara de “não acredito”. Aquela cara de “que absurdo foi esse que acabei de ver?”, sabe?

Essa história, com toda a sua pureza e inocência do encontro, acabou nos provocando boas reflexões, e para mim ficou a seguinte: “E aí, você é o que é, ou é o que querem que você seja?”.

A resposta é complexa e não é universal, cada um terá uma versão do fato, e também envolve uma série de outros questionamentos. Porém, às vezes parece que o universo nos apresenta a oportunidade de sermos uma “tinta verde”, sem questionamentos, apenas nos dando uma bela chance de evolução, e nos adaptarmos a uma nova realidade, experimentando uma nova maneira de vivenciar a vida.

O fato é que nesse caso, procuramos ser o que o momento pediu, viver o presente e estar inteiramente disponíveis para aquele encontro. Nos permitimos receber mais um desses bons momentos que a vida proporciona para palhaços e crianças no hospital.

* Os nossos relatos são descritos utilizando nomes fictícios, para preservar a integridade dos pacientes internados.

Artista: Tiago Abad

Palhaço: Cirurgião Acerola

Cidade: Campinas

Hospital: Mário Gatti

Mês: fevereiro – 2018

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