Bú! :-P

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O Paradoxo Vida e Morte e a Importância do Artista Dentro dos Hospitais
O Paradoxo Vida e Morte e a Importância do Artista Dentro dos Hospitais

Tiago Abad - Formador de Elenco dos Cirurgiões da Alegria

O trabalho realizado dentro dos hospitais exige grande sensibilidade do artista. Aliás, é trabalho tão humano, que antes de qualquer habilidade artística, habilidade técnica ou até mesmo alegria, há o lado humano agindo. Deve-se, antes de mais nada, perceber, ouvir, olhar, observar, sentir!

Sentir realmente o que está acontecendo, se você é necessário, se é bem quisto no ambiente, até se merece aquele momento, estar ali. O filtro deve ser grande (mundo dos estímulos – contato e escolha), vai para a peneira (sensações – o que está acontecendo) e passa pelo funil (sentimentos – o que vou fazer), e a ação está atrelada a todo esse processo. Dessa maneira, é fato que esse não é trabalho para qualquer um, ou seja, nem todos possuem preparo humano suficiente para estar naquele ambiente, de tamanha responsabilidade.

Tem muita gente no ambiente, cada um com sua história de vida, alguns trabalhando, outros de passagem, uns visitando, outros acompanhando… Quarto com duas, três, quatro, seis, oito pessoas, o público é pequeno, a arte, grandiosa! Como encaixar ali, naquele curto espaço de tempo, com poucas pessoas, o jogo correto, o momento exato da ação, o volume das falas, o momento certo para que a sua presença aconteça, a dosagem dos movimentos, o cuidado com os equipamentos, tem som, agulha, dor, cansaço, esperança… O foco da atuação, pra quem olho, porque olho, porque o jogo foi pra esse lado, porque não tentei outra coisa, a enfermeira apareceu no momento exato que eu anunciei a presença da rainha, o médico pediu que passasse naquele quarto por causa de um paciente, mas quem se divertiu absurdamente foi sua companhia, ouvi dizer que o outro morreu, o Jorge não está mais aqui, ela teve alta, você vai embora, você volta palhaço?

Olha, são tantas variáveis e uma arte tão grandiosa, que só os grandes ou pequenos (agora pintou uma dúvida) conseguem estar ali dentro desempenhando seu papel com maestria, afetando o ambiente e sendo afetados das mais diversas maneiras.

O palhaço é isso, ser repleto de humanidade, sensível o suficiente para saber onde vai, e até quando não sabe, tudo acontece da maneira e no momento que deve acontecer. Quando você não programa, a vida e o universo te conduzem. Como é grande esse movimento e como é forte! Ser palhaço é um convite a ser o que é, inclusive, a sentir cada vez mais a responsabilidade de ser o que é e de estar onde está. Momento presente, e que presente!

Toda essa introdução, para contar um momento muito emocionante que vivi acompanhando o trabalho dos Cirurgiões Gaguelho e Nelson do Bigodinho no Hospital Mario Gatti em Campinas. Os palhaços entram na recepção principal do hospital, bastante gente aguardando sabe-se lá o que (uma notícia, o momento da visita, uma melhora de um paciente, pensando na vida, querendo ir embora, chegando, saindo, enfim, muitas situações possíveis). Duas figuras que aparentam não pertencer àquele ambiente, mas que se integram rapidamente aos presentes, três pessoas têm bigode, e chega Nelson do Bigodinho. Quem não tem bigode? Cirurgião Gaguelho, cadê seu bigode? Começam a procurar nas bolsas, no teto, embaixo das cadeiras e por aí vai… aquela mistura de gente, cada um de um lugar, com seus pensamentos, dá lugar a um espaço que tudo pode, a brincadeira acontece, brotam risos e o foco está nos palhaços… diversão.

Nesse mesmo espaço e tempo, muitos se divertem, brincam… um homem, aproximadamente 40 anos atravessa a sala, o espaço, vai de encontro aos seus parentes, grita algumas palavras e cai em prantos, todos a sua volta choram muito, procuram consolar o homem de alguma maneira, outros saem para chorar em seus cantos, cada um no seu espaço.

A cena mexeu muito comigo, eu ali, vendo aquilo, acompanhando um trabalho mágico e os dois mundos acontecendo paralelamente. Separados por uma porta de vidros, palhaços divertiam pessoas que talvez também pudessem passar por momentos como aquele que vi, e do outro lado da porta, a dor, o choro, a perda.

O hospital é realmente cheio desses momentos paradoxos, e o artista, o palhaço, é o paradoxo em si, sensível e pronto para esse movimento de emoções. Vida longa a esse trabalho!

 

Tiago Abad

Formador de Elenco, Palhaço e Psicólogo.

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