[Plantão Esparadrapo} O Ponto de Ouro na Janela da Alma
Publicado em 28 de julho de 2026

Era uma manhã fria de sexta-feira quando chegamos ao hospital da Santa Casa de Limeira. Depois de nos prepararmos e nos transformarmos em Cirurgiões Juvelinda e Acerola, fomos em direção aos encontros, em busca de olhares para trocar com as pessoas que ali estavam, imersas em suas tarefas diárias.
Tem uma coisa que aprendi ao longo desses anos na palhaçaria que considero o "ponto de ouro" em uma obra artística. Sabe aquele quadro pintado de azul com um único ponto vermelho? Seja ele um ponto ou um traço, como a imagem de uma moça bonita de vestido vermelho correndo em um campo todo verde, sob o céu azul, é certeza que o vestido vermelho chamará a nossa atenção. As cores e as formas podem mudar em uma tela, mas sempre haverá um "ponto de ouro" para direcionar o nosso foco. No palhaço, nós temos o nariz vermelho que atrai o olhar, sim. Mas o que dá vida a ele? O próprio olhar. Sim, a famosa janela da alma. O olhar é uma das ferramentas que mais utilizo; carrego muitas vertentes dele em minha mala de palhaça, porque é ele que conecta verdadeiramente.
Pois bem, estávamos a caminho do Centro Onco-Hematológico (COL), logo após passarmos pela pediatria, que aliás, rendeu outra bela história com o Acerola que vocês poderão apreciar em breve, onde fomos surpreendidos com um "parabéns" surpresa, já que era o dia do aniversário dele. Passeando e brincando com as pessoas, encontramos uma colega já conhecida de outros momentos. Conversa vai, conversa vem, Acerola começou a brincar dizendo que não ia tomar o "Irmão Jairo", porque o remédio tirava o apetite, e de ter apetite ele gostava, principalmente para um bom churrasco. Nesse momento, a colega desabafou que, para ela, isso não seria um problema, uma vez que já se encontrava muito magra e sem apetite nenhum para nada, nem para o seu chocolate favorito, que seguia acumulado no armário para a total felicidade do marido, que acabava comendo tudo.
Para quem não conhece essa realidade, a falta de apetite em pacientes oncológicos é um sintoma muito comum e complexo. O próprio tumor libera substâncias que modificam o metabolismo, e tratamentos como a quimioterapia e a radioterapia provocam efeitos colaterais severos. Além das diversas questões emocionais envolvidas, o paciente pode enfrentar feridas na boca, fadiga e náuseas. Até o paladar muda; algumas pessoas relatam que tudo fica com um gosto "metálico". Todos esses fatores contribuem para a perda do prazer de comer, e era exatamente esse o caso da nossa colega.
A conversa continuou, recheada de sugestões de refeições gostosas, mas, segundo ela, nada a apetecia. Foi então que me lembrei de um ritual que tenho todo mês de maio (o Acerola diz que eu faço isso o ano inteiro, mas vamos ignorá-lo por enquanto). Maio é o mês do meu aniversário e eu adoro tortinha de morango. Movida pela minha sobremesa preferida, resolvi que, nesse período específico, eu seria a "Chefa": saio comemorando e experimentando a iguaria em todas as padarias que encontro, pelo menos uma vez por semana. É quase um projeto gastronômico!
É uma bobeira, eu sei, mas pensa comigo... Isso tem a ver com algo muito maior. Esse ritual me oferece um sentido na vida, independentemente das circunstâncias ou de como me encontro. É um momento que me traz alegria e que vai além do prazer físico; é a oportunidade de vivenciar um instante com alguém querido, que escolho para levar comigo. Tem a ver com não apenas comer uma tortinha, mas sim saborear um momento que faz sentido para mim.
Essa busca por significado, mesmo nas pequenas coisas, nos conecta diretamente à história de Viktor Frankl. Médico e Neuropsiquiatra austríaco, ele é conhecido por ser o precursor da Terceira Escola Vienense de Psicoterapia (vinda após Freud e Adler) e o criador da Logoterapia. Frankl era um homem apaixonado pela vida, que gostava de escalar montanhas e pilotar aviões. Durante a Segunda Guerra Mundial, ele foi feito prisioneiro nos campos de concentração nazistas. Apesar do sofrimento extremo em que se encontrava, desprovido de identidade, cultura, comida ou roupas quentes, ele se agarrou à ideia de se manter vivo encontrando um propósito em meio ao caos. Frankl assumiu para si a tarefa de reescrever o livro que os nazistas haviam lhe roubado, usando pequenos pedaços de carvão que encontrava no chão e fragmentos de papel, alimentando diariamente a esperança do reencontro com sua família. Ele provou que, mesmo quando nos tiram tudo, ainda nos resta a liberdade de escolher a nossa atitude diante do sofrimento.
Voltando ao encontro, quando compartilhei com a nossa colega essa minha saga lúdica de provar tortas de morango pelas padarias de Limeira, algo mágico aconteceu: os olhos dela brilharam. Naquele instante, o meu relato e o olhar dela se tornaram o nosso "ponto de ouro". Fico na torcida para que essa ideia tenha despertado nela um apetite adormecido e que, independentemente de qual seja o alimento, ela consiga, apesar das circunstâncias, reencontrar o sabor novamente.
Artista: Cris Abreu
Palhaça: Cirurgiã Juvelinda
Cidade: Limeira-SP
Hospitais: Santa Casa
Mês: julho – 2026