[Plantão Esparadrapo] A Vida É Tão Rara
Publicado em 30 de setembro de 2026

“Enquanto o tempo acelera e pede pressa, eu me recuso, faço hora, vou na valsa, a vida é tão rara.” (Trecho da música Paciência, de Lenine).
Palhaçada tem seus instantes, e nem todos são alegres. Digo que as ruins são as que geralmente chegam silenciosas, sem surpresas. Basta observar e sentir: ela paira pesada no ar.
E vocês poderiam dizer-me: “Mas é claro, você está no hospital! ”
Entendo que seja óbvio pensar assim, mas quero me aprofundar...
O palhaço representa muitas coisas e, em um jogo e na brincadeira, uma delas é a falha humana. Nós nos colocamos vulneráveis diante daquele que se encontra o mais vulnerável de todos: a pessoa enferma. É nesse momento que a menor máscara do mundo é o que mais revela.
E, como somos, antes de tudo, seres humanos, estamos fadados a sentir, a nos emocionar, porque nós nos entregamos ao agora. E, às vezes, a entrega dói, e muito.
Somos terra, água, flores, espinhos e, ao mesmo tempo, observadores do espaço em que nos encontramos. Disfarçamos o que não pode ser revelado, como uma mágica bem executada: lágrimas atrás do companheiro de cena, na primeira oportunidade, enquanto ele segura a onda; observar ausências onde deveriam haver presenças...
O palhaço representa muitas coisas, como ser confidente de algo, de alguém, de situações, sejam elas alegres, tristes, revoltadas, inconformadas, desesperadas, invejosas, assustadoras.
É como se fosse um grande ímã de palavras e sentimentos, que brotam e saem das pessoas e flutuam até nós. Às vezes, as palavras vêm em flechas; às vezes, vêm como marreta, arrebentando tudo. As palavras, na maioria das vezes, nem são direcionadas a nós, mas viramos o espelho temporário para o desabafo ou o desafeto, e nem entendemos, às vezes, o porquê da circunstância. Apenas estamos lá e emprestamos os ouvidos e nosso olhar atento.
O palhaço representa a vitória e a derrota da vida de todos os dias, representa o encontro do sentido e a perda dele. Observamos o cansaço das equipes, às vezes as amarguras, o desbotamento dos corpos pelo tempo, olhares perdidos nos tetos dos quartos, sons de rodinhas nos corredores, máquinas ligadas, placas de isolamento.
Sentimos os diversos cheiros que não conseguiria descrever aqui, mas arrisco dizer algo como álcool misturado com comida e banheiro. Sim, às vezes não é agradável transitar pelo hospital e penso imediatamente que a enfermagem e toda a equipe faz isso todos os dias.
Lembra da vulnerabilidade?
Nós sorrimos no meio do caos, falamos algumas abobrinhas, brincamos e damos o nosso bom dia a todos, porque o nosso agora está para o aqui, onde quer que o aqui seja.
A vida é tão rara. É por isso que, mesmo sem ter a intenção, às vezes nos envolvemos, criamos pontes, nos conectamos, olhamos nos olhos, pensamos a semana toda em alguma música que surpreenderia alguém e sentimos a sua perda quando descobrimos que ela não está mais lá, ou comemoramos a felicidade de saber que voltou para casa.
Porque o palhaço é essa montanha-russa: grandiosa por fora e uma loucura por dentro.
Artista: Cristiane de Abreu
Palhaça Cirurgiã: Juvelinda
Cidade: Piracicaba-SP
Hospital: HFC
Mês: Setembro 2026